ESCRAVA SOU EU, TU, NÓS, E ELES

“A liberdade é a possibilidade do isolamento […] Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.”

(O trecho acima foi extraído de O Livro do Desassossego, por Bernardo Soares – um semi-heterónimo de Fernando Pessoa)

Quando vivemos em sociedade, nos envolvemos com outras pessoas que de certa forma terão algum tipo de influência sobre nós. Somos escravos de ideais sociais; de nossos conceitos morais, éticos e religiosos; de nossos amores; de nossos empregos; de nossas famílias… Sempre viveremos para de alguma forma afetar outras pessoas – e sermos afetados por elas também. Nossa sobrevivência depende dessa escravidão.

Nenhum ser social pode se considerar livre. E eu nem acredito que alguém de fato busque isso. Nem que se quisesse viver no meio da selva de forma primitiva, ainda assim seria escravo. Escravo do ambiente que vive – ao ter que se adaptar a ele.

Todos somos escravos. Fernando Pessoa com seu semi-heterónimo ao escrever esse fragmento que citei no começo do post, sabia disso. Bernardo Soares tanto sabia, que carregava consigo a angústia de não poder fazer nada a respeito. O texto termina assim:

“Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.”

Melhor ser realista (mesmo que isso soe meio deprimente), do que ser um iludido. Já nascemos todos aprisionados nessa selva de pedras. Podemos até nos esconder à noite em nossas cavernas, mas pela manhã não tem jeito: temos que sair.

TRAGÉDIA, SEGUNDO ARISTÓTELES

Tragédia (do grego antigo τραγῳδία, composto de τράγος “bode” e ᾠδή “canto”) é uma forma de drama, que se caracteriza pela sua seriedade e dignidade, frequentemente envolvendo um conflito entre uma personagem e algum poder de instância maior, como a lei, os deuses, o destino ou a sociedade.

O filósofo Aristóteles teorizou que a tragédia resulta numa catarse da audiência e isto explicaria o motivo dos humanos apreciarem assistir ao sofrimento dramatizado. Explicando melhor esse conceito de “catarse”, ele se refere à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Segundo o filósofo grego, se um homem bom passa da má para a boa fortuna, nós não sentiremos terror; se um homem bom passa da boa para a má fortuna, nós ficamos com pena, e não sentimos compaixão nem terror; se um homem mau passar da boa para a má fortuna, nós ficamos felizes da vida; e se um homem mau passar da má para a boa fortuna, nós sentimos repugnância. Ou seja, é preciso que o herói trágico passe da “felicidade” para a “infelicidade” por algum motivo para atingir a catarse.

A tragédia clássica deve cumprir, ainda segundo Aristóteles, três condições: possuir personagens de elevada condição (heróis, reis, deuses), ser contada em linguagem elevada e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Se minha vida fosse uma peça da tragédia clássica aristotélica, diria que ainda faltam requisitos, e principalmente um final – já que “OI?” ainda estou por aqui. Então prefiro acreditar estar num enredo de comédia dramática, pois se assim for, ainda resta alguma esperança.

fonte: wikipedia