ESCRAVA SOU EU, TU, NÓS, E ELES

“A liberdade é a possibilidade do isolamento […] Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre.”

(O trecho acima foi extraído de O Livro do Desassossego, por Bernardo Soares – um semi-heterónimo de Fernando Pessoa)

Quando vivemos em sociedade, nos envolvemos com outras pessoas que de certa forma terão algum tipo de influência sobre nós. Somos escravos de ideais sociais; de nossos conceitos morais, éticos e religiosos; de nossos amores; de nossos empregos; de nossas famílias… Sempre viveremos para de alguma forma afetar outras pessoas – e sermos afetados por elas também. Nossa sobrevivência depende dessa escravidão.

Nenhum ser social pode se considerar livre. E eu nem acredito que alguém de fato busque isso. Nem que se quisesse viver no meio da selva de forma primitiva, ainda assim seria escravo. Escravo do ambiente que vive – ao ter que se adaptar a ele.

Todos somos escravos. Fernando Pessoa com seu semi-heterónimo ao escrever esse fragmento que citei no começo do post, sabia disso. Bernardo Soares tanto sabia, que carregava consigo a angústia de não poder fazer nada a respeito. O texto termina assim:

“Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis. Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.”

Melhor ser realista (mesmo que isso soe meio deprimente), do que ser um iludido. Já nascemos todos aprisionados nessa selva de pedras. Podemos até nos esconder à noite em nossas cavernas, mas pela manhã não tem jeito: temos que sair.

EU, QUE POR TANTO TEMPO ME AUSENTEI, VOLTEI

…férias vêm (grazádeus, né?), e vocês vêem o retorno do blog.

Treze de junho não me lembrava nada em específico, e o post de hoje nada mais seria do que um breve ‘opa! tô de volta no pedaço‘, mas já que o google está aí para mostrar para a gente coisas não muito importantes:

Hoje seria o aniversário de 123 anos de Fernando Pessoa. Isso mesmo: cen-to e vin-te e três a-nos (tá vendo o por quê do ‘não muito importante’? ) Enfim, relevando ou não o  mérito da data, é inegável a grande importância no contexto literário português desse autor, considerado um dos maiores poetas da nossa língua. Por essas e outras, achei que o cara merecia uma lembrança por aqui…

Por ora, deixo um poema bem conhecido (e particularmente um dos meus favoritos), de um dos heterônimos do escritor, ‘Álvaro de Campos’:

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe – todos eles princípes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.